11 abr

Quintana, Leminski e o mundo inventado de macaquinhos no sótão

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Pra mim poesia é assim: gosto ou não gosto. Faz cosquinha? Gosto. Emociona, gosto. Tem música, gosto. Esquisita, distante, pedante, empolada, não gosto.

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Ah! A métrica, a rima rica(?!), a prima pobre (sic) e a isso a aquilo a aa a  aa não sei. Gosto ou não gosto. Depende do quê? Do gosto. Da memória. Do que toca lá dentro. Feito Leminski, “(…) era uma língua bonita, música, mais que palavra”. Bem assim.

E poesia pra mim não tem muito esse papo de idade. Verso bom é verso que conquista, arrebata, integra, tatua e balança.Verso bom faz ventar.

Digo e provo. Ó: quem diz que os versos de Raul Bopp no poema “Cobra Norato”, escrito lá na década de 30, não podem embalar a noite de sonhos de seus filhotes: “(…) Um dia / eu hei de morar nas terras do Sem-fim / (…) Faz de conta que há luar / A noite chega de mansinho / Estrelas conversam em voz baixa”. E Veríssimo, o Luis Fernando, com os versos “(…) Calma / Devagarinho / Como quem abre o estojo do mundo com um aramezinho”, não pontuaria com mágica um dia comum na ida para a escola? E mais uma vez Leminski com sua “Dança na Chuva”: “senhorita chuva /  me concede a honra / desta contradança” – não seria um bom companheiro nas tardes sem videogame?

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“Lili inventa o mundo” de Quintana – por vezes perdido e esquecido lá nas prateleiras dos livros infantis – tem recheio de minicontos com gostinho de poesia.

E que ‘gente grande’ não abriria sorriso de norte a sul com o verso “Eu te amo como se ama um cachorrinho verde”? Ou não mergulharia nas colheradas de infância feliz com os versos de Penélope Martins: “QUERO MORAR NUM SORVETE! (…)Uma casinha de sorvete. Sem calda de caramelo ou chantilly / Sem confeito que derreta por aqui /Uma casinha de sorvete /Não quero nada chique, complicado /Tralhas que deixam tudo melecado”.

E quem não leu Cecília? E quem não leu “Ou isto ou aquilo”? E quem não tem já pronto no repertório do ouvido a “língua do nhem”? “(…)Depois veio o cachorro

/ da casa da vizinha, pato, cabra e galinha, / de cá, de lá, de além, / e todos aprenderam / a falar noite e dia / naquela melodia  / nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…” Quem me lembrou desse poema foi a vó Mara que povoa a infância do Biel com afeto e poesia – e a nossa vida também!

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Para não mais dizer, Veríssimo me toma novamente o post: “(…) uma poesia não é feita com palavras”.

Poesia é mesmo pra gostar. “Poesia numa hora dessas” e em todas. Em doses nada homeopáticas para toda a família.

Aqui a biblioteca do P de poesia para ter para sempre no seu travesseiro de folhas.

“Lili inventa o mundo” de Mário Quintana pela Global Editora com as ilustras-ilustres de Suppa.

“Toda Poesia” de Paulo Leminski pela Companhia das Letras.

“Ou isto ou aquilo” de Cecília Meireles – que merecem um post só pra eles; ela e o livro! – também pela Global Editora. Com as ilustras-ilustres de Odilon Moraes.

Mais de Cecília Meireles aqui em sua última entrevista para a Revista Bula. Vale a leitura.

Mais da moça que também leva o pê da poesia no nome, Penélope Martins aqui .

E mais do traço de Tati Moes que aqui ilustra (mais do que ilustre!) o “Quintalzinho”. Mais da moça e tudo, aqui.

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02 abr

Macaquinhos no sótão com asa, crista e bico

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A Travessa Cotovia número 12 tem pra lá de história dentro da história pra contar!

Conta um tanto da história de um pai que entrou em parafuso com a perda da mulher. Mas a morte com esse tom trágico não vinga. Fica mesmo só o registro. Como que para justificar as ‘sandices’ do pai.

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O parafuso frouxo do pai tá mais para uma birutice mesmo – bem de gente de verdade com pitadas de fantasia. Zero vontade de tomar banho, de comer, de fazer a barba… e uma vontade enorme de voar. E também conta um tanto da história de como uma pirada pode mexer com toda a família. Lizzie faz o papel da mãe que lhes falta: “Está na hora de acordar!”, “Beba isto”, “Mastigue bem”.  As recomendações em tom maternal seguem e em algum momento parecem demais. Os diálogos parecem um pouco inverossímeis até que: “O que eu faço com você? Não sei se devo deixar você sozinho.” Ahan. É isso . É bem aí que nos damos conta de que esse não é só mais um livro na prateleira do seu filhote. Esse é do tipo pra balançar a floresta inteira! (e juro que a rima nada rica por aqui não foi proposital)

“Meu pai é um Homem-Pássaro” é do tipo que dá cupim na cadeira e piolho nos dedos. Sabe? É do tipo que vem com poesia dentro e faz eco com  delicadeza.

Conta mais um tanto da história de uma filha que encontra por baixo das asas (?) do pai-pilhado-pirado, o melhor dos pais!

Conta a história de como uma “piração” pode se transformar em um sonho que de tão forte ganha impulso e cresce. E um dia ganha ar de determinação. E é capaz de com “um ponto aqui, um alfinete ali, um prego acolá, um papelão ali e umas penas lá” #mudaromundo. Capaz de fazer Jack e Elizabeth Corvo voarem!

O dia da Grande Competição do Pássaro Humano está prestes a chegar. E essa é também a GRANDE chance de Jack Corvo. “Método de propulsão: asas e fé, imagino.” Comentou Senhor Popp. Ahan. Bem assim. A filosofia e a crença da Família Corvo, no impossível, é quase um mantra. Crá, crá!

No alto de toÔda a sua sabedoria infantil Lizzie pontua o que está por vir: “(…) precisamos por uma coisa na cabeça. Mesmo com as penas da cauda, os bicos e as cristas…pode ser que não dê certo. (…) Você está entendendo, não está? – perguntou ela – Pode não dar certo. Mas, aconteça o que acontecer, a gente fez tudo isso junto. É isso que importa.”

Pai e filha compartilham a busca, a fantasia e são cúmplices no encontro.

meu pai é _ ilustra 2_ by polly dunbar

Entre penas com todas as cores do mundo personagens deliciosos como o Sr. Mint ou Mentinha como chama tia Doreen, o simpático Sr.Popp e seu megafone e os participantes mais divertidos de todos os tempos!

Em um parágrafo que se quer deixar morar Jack e Lizzie moldam um grande ninho em um canto da cozinha. Moldam o ninho com cuidado e um espaço oco no meio – como um bom ninho deve ter! E ali ficaram, juntos, quietinhos, enquanto a tarde caía. “Eu podia ficar aqui pra sempre – disse o pai. (…) Mas deu um salto e pôs-se de pé.” Precisavam terminar as caudas, as cristas e os bicos! Afinal a cada dia aparecia um novo participante… uma trapezista de Malta, um acrobata de Cuba…

Se eles voaram?  Não por muito tempo. Mas bateram as asas bem forte e gargalharam de alegria até o mergulho final no rio.

O que fica depois da última palavra é um farfalhar gostoso de pássaros lá longe.

meu pai é _ ilustra 3 _ by polly dunbar

O já mega-blaster-conhecido David Almond conquistou nada menos do que o Hans Christian Andersen 2010 com esse seu primeiríssimo livro para o público infantil. Preciso dizer mais? Então vai lá http://www.davidalmond.com

A minha edição conta com as ilustras-ilustres de Polly Dunbar. Um encanto! Uma bossa de aquarela, lápis e recortes. Sobre a Polly o que se pode dizer de mais doce é que desenha desde os 16 anos e que – talvez! – desde então espante alguma tristeza pintando e também com seu melhor vestido cor-de-rosa.  Mais sobre a moça aqui .

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20 mar

Macaquinhos no sótão em: "Era uma vez (e pode ser agora também)"

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Macaquinhos no Sótão é a coluna de literatura infantil do blog, escrita pela talentosa e amiga Vanessa Balula.

Ela estará por aqui, dividindo suas belas histórias com a gente.

Sorte a nossa!

Vai lá, Balula. A floresta é sua!

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Faz um tempo – que já não cabe na lembrança – que esse papo de contar histórias para nossas crianças começou.

Antigamente, muito antigamente, a vida era mesmo assim, GrAnDe(!), pelo o que se ouvia contar.

Depois,  com tanta novidade, o contar foi sendo terceirizado para o rádio, o cinema e passou a ser a vez das avós – aquelas que antes, bem antes, sentavam em cadeiras de balanço e embalavam o fim do dia. Depois veio a TV, a escola, as babás (?!) e… coisa boa! Novamente estamos redescobrindo que a infância precisa de histórias. E por todo canto e lado hoje se incentiva o narrar. “Leia uma história para uma criança” é a campanha bárbara do banco com um simpático visual cor de laranja ou,  ainda,  a campanha da cadeia de hamburguers que teve 10 milhões de lanches ainda mais felizes com a farta distribuição de livrinhos infantis -substituto incrível do brinquedinho de plástico de outrora.

A floresta inteira já sabe e grita: contar histórias para os seus pequenos,  sejam eles não tão pequenos ou mesmo emprestados,  é o que de mais bacana se pode fazer.

Contar é compartilhar. É se deixar estar e ficar ali por aquele tempo, junto.  E  esse encontro é quase mágico: na Terra do Nunca, no laboratório de um cientista maluco, em um planeta pequenininho onde vive um príncipe tão pequeno quanto, em um sítio distante com uma boneca falante…

A dica de hoje é pra contar pra todo mundo: ‘Quando eu nasci’, das portuguesas pra lá de talentosas Isabel Minhós Martins e Madalena Matoso – uma história que merece todas as leituras!

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Fala sobre tudo o que é novo ao menos uma vez. Sobre aquele momento quando temos “tudo por estrear”.

O narrador é uma criança que nos conta como era lá dentro da barriga de sua mãe. E como foi sendo enquanto crescia. Nasceu e depois?

“(…) Quando eu nasci nem sonhava que havia céu e que o céu mudava de cor

(…) Quando eu nasci  tudo era novo”

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Todo o livro é de uma graça recheada de delicadeza. O tom é o de uma conversa gostosa de criança. Tudo bem prontinho para se transformar em um dos títulos de cabeceira.

ilustras

Drops da selva:

Por aqui, o livro saiu pela Tordesilhinhas. Por lá, em Portugal, pela Planeta Tangerina,  que fez um trabalho incrível e disponibilizou no site propostas de leitura, papos e trabalhos do livro para pais e educadores. E merecidamente também conquistou uma Menção Especial no Prêmio Nacional de Ilustração.

mais de isabel

mais de madalena

Mais do livro aqui http://www.planetatangerina.com/pt/livros/quando-eu-nasci

Mais do Planeta Tangerina, aqui http://www.planetatangerina.com/

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03 jul

MACAQUINHOS NO SÓTÃO

O calendário me pega pelo pé. A pouquinhos dias da Flip e da Flipinha e ainda, depois de uma lista-listona de 30 livros indicados como os melhores do ano pela Revista Crescer e da lista do  Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) , eu aqui teimando em contar mais do cenário off-comentados

Tem muita coisa boa na literatura infantil e infantojuvenil hoje. Mesmo.  Mas vez por outra, quando vejo, a tribo resolve brincar de figurinha duplicada e indica quase sempre os mesmos títulos, autores e ilustradores. Fico feito gorila ranzinza. Afinal, temos a floresta inteira! Vale mudar de cipó e falar de um monte de história e de gente bacana que ainda não ganhou a floresta – e que os macaquinhos adoram!

Quer ver? Dentro deste livro moram dois crocodilos de Claudia Souza (ed. Callis,  uma turma que vale ficar de olho!) com as ilustras-ilustres feitas de recortes, fotos, sombras, colagens e texturas, marca registrada da talentosa Ionit Zilberman.  O livro é um atalho colorido para fugir do medo. Ahan.

A vida de um articulado menininho e seus simpáticos óculos verdes fica bastante movimentada por seu medo de crocodilos. Logo ele, que não tem medo de palhaço nem de estouro de balão, de dragão-de-komodo, nem de cobra, de fantasma, de altura… ele não tem medo de nada disso. Mas de crocodilo se assusta até com desenho.

O medo é tanto que passa a ter medo da hora do medo chegar. Até que um dia sua mãe lhe faz começar a entender que, apesar de suas bocas assustadoras, de sua pele escamosa e seus olhos ameaçadores, os crocodilos desenhados no livro – e mesmo aqueles da TV –  podem não ser tão pavorosos. Que um dia a gente descobre ser maior e mais forte do que os medos que a gente sente. E que quando esse dia chegar, aqueles dois crocodilos bem grandões que moram no livro podem parecer dois calanguinhos. E vai ser até engraçado pensar que um dia nos fizeram tremer!

Quem não lembra dos medos da infância? O menininho dos óculos verdes visita todos eles. E, acreditem, ele também nos resgata um tanto do quarto escuro. A vida passa, a gente cresce e os medos mudam. Mas nossos filhotes reencontram,  nos momentos em que menos esperamos,  o bicho-papão que conhecemos lá atrás, nas formas e cores que nem imaginamos.

Nada  como um colo, uma almofada e uma boa história pra espantar de vez o medo de ter medo.   Como o conforto de uma clareira em noite de céu estrelado.  Então bóra ligar o mode mammys contadoras de histórias pra embalar uma infância pra lá de especial para os nossos filhotes!

Drops da selva:

– o livro também foi traduzido para o inglês. Oba!

– a Callis classificou o livro com indicação para crianças a partir dos 5 anos. Mas adianto que, com um bom papo e algumas pequenas e curtas adaptações, você consegue fazer o seu filhote aproveitar bastante bem antes disso.

– e, sim, alguns dos livros repetecos valem o passeio pelas listas. Mas não vale virar macaco de imitação. Pronto, falei.

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19 jun

Macaquinhos no sótão

Demorei para decidir que este seria o primeiro texto da coluna. Sentei com pose de jornalista e nada. Baixou a blogueira, voltou a agente literária e tsc tsc tsc. Só depois de muito risque & rabisque, me sentei no cantinho do sofá. Eu, as almofadas e minhas meias coloridas e aí encontrei. Não o texto prontinho, feito sob encomenda, não. Encontrei aquela menina loirinha que fui lá atrás. Aquela que sentava bonecas, bichos de pelúcia e playmobil, todos lado a lado na cama para a hora da história.

Foi aquela menina loirinha que me empurrou para a literatura. Hoje, o que tenho de mais especial são as histórias que trago em mim. Aquelas herdadas, que a gente conta por ouvir contar, aquelas dos livrinhos vendidos em jornaleiro, aquelas da hora do recreio, aquelas que me faziam dormir… O tempo passa e um dia entendemos que o que pode haver de mais mágico são as histórias – são elas que nos acompanham na vida, são elas que nos fazem crescer. Daí, nos encontrarmos aqui para falar um tantinho das histórias que vão colorir a infância dos nossos filhotes.

Hoje, entre as folhagens, um livro que inspira gente pequenininha e gente grande –  Elefante? de Ruth Rocha (ed. Salamandra). Mári uma menina de maria-chiquinhas teve um sonho ‘extravagante’: sonhou que era um elefante bem grandão e que balançava sua tromba de um lado para o outro. Quando acordou em seu quarto cor-de-rosa não sabia se era uma menina  que sonhou ser um elefante ou um elefante que estava sonhando ser uma menina. A busca dessa resposta é uma trilha e tanto! “E se a realidade for sonho e o sonho for realidade?” – quem nunca pensou que sonhava acordado? Tudo contado com as ilustras deliciosas de se ver(!) de Flávio Fargas, o pai da Sofia e do Mateus.

O livro faz parte da série Vou te contar – uma coleção de títulos escritos por Ruth Rocha entre os anos de 1969 e 1981 para a revista Recreio.

De galho em galho vamos passear entre os livros mais bacanas de todas as infâncias. Esse é só o começo. Temos a floresta inteira.

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