o menino da cabeça grande (ou “cada criança tem seu tempo”)

noel

Meu filho Noel nasceu com uma cabeça grande.

Já sabíamos. O ultrassom do pré-natal já apontava.

Quando ele nasceu, com este “perímetro cefálico aumentado”, logo passou por alguns exames. Nada foi apontado. Apenas uma cabeça grande.

Ao longo de seu crescimento, nossa pediatra sempre nos deixou alerta. Era importante acompanhar o desenvolvimento.

Noel fez raios-X, ultrassons, ressonâncias magnéticas… Tudo negativo.

Por causa da cabeça grande, ele tinha muita dificuldade em se equilibrar e sustentar o próprio peso. Somado a isso, Noel nasceu com uma hipotonia muscular – uma falta de tônus nos músculos. Ele ficava horas e horas deitado, prostrado, sem se mexer.

Ficamos muito preocupados, pensando que ele pudesse ter algum problema neurológico.

Noel passou por especialistas em crânio e  neurologistas.  E novas investigações começaram.

Ele começou a ficar atrasado em relação a outras crianças. Demorou para sentar, sustentar a cabeça, engatinhar, andar…

Quando ainda mal sentava, por indicação médica, começou uma fisioterapia infantil.

Confesso que era difícil acreditar no processo. Fisioterapia em bebês é algo tão lúdico que até parece que ele não estava fazendo nada.

E nós estávamos lá com o coração apertado, querendo correr atrás do tempo perdido, procurando respostas a tantas dúvidas.

Noel já tinha um ano e meio e ainda engatinhava, enquanto muitas crianças, ao completar um ano de idade, já estavam andando. Era hora de começar uma pesquisa genética.

Testes de síndromes raríssimas foram feitos. Tudo negativo.

Por estranho que possa parecer, cheguei a torcer para que os médicos descobrissem alguma coisa. Assim, poderíamos tratá-lo da maneira mais adequada. Nada pior do que não saber o que está acontecendo com o seu filho.

Mais alguns meses e, diante de tantos exames negativos, os médicos resolveram dar um tempo para o menino. Ninguém conseguia dizer o que ele tinha.

Passamos a tentar outra abordagem: deixá-lo livre para experimentar as situações da vida, não ser poupado de quedas e tropeções, enfim, de sair da barra da saia da mamãe e do colo seguro do papai. Brincar, cair, levantar. E assim fizemos.

Aos poucos, o corpo do Noel foi ficando mais proporcional. Estava mais forte e com mais equilíbrio. Começou a ensaiar os primeiros passos.

Com dois anos e um mês, Noel andou. O safado esperou um dia em que estávamos viajando e deu aos avós, que estavam tomando conta dele, o presente de vê-lo andando pela primeira vez.

Semana passada, com dois anos e quatro meses, Noel começou correr e descobriu sua nova paixão: a bola.  Chuta, corre, cai, levanta. Agora nada mais segura o Noel.

Mais de dois anos se passaram… Tão intensos dois anos.

Quando a gente estava no meio de tantos exames e pesquisas médicas, me pegava olhando bem no fundo dos olhos do Noel e aqueles olhos me diziam:

– “Mãe, o que você está fuçando tanto? Deixa eu crescer no meu tempo!”

E nós aprendemos a respeitar o tempo do Noel.